| |
Nós e nossos vinte anos...
"[...] quando eu me separei da minha ex-mulher, a Madalena, eu tinha vinte anos..." (Oswaldo Montenegro)
Acabo de chegar de um show do Oswaldo Montenegro. Nada especial, pensariam alguns, mas eu não penso assim, nem poderia pensar. Como eu disse a algumas pessoas essa semana, eu cresci ouvindo especialmente dois caras: Oswaldo Montenegro e Belchior, agora, imaginem como não devo estar me sentindo depois do meu primeiro show do Oswaldo, muito do que eu "sinto", "penso" hoje, tem a ver com esses dois caras, eu os ouvia com meu pai, só por isso já seria marcante o suficiente. Pois conto. É um misto de sensações, bastante diferentes, suscitadas em momentos diferentes e que tem se manifestado de forma diferente. Tentarei estabelecer uma cronologia. A sensação inicial foi indescritível: chegamos no teatro e ele estava sentado numa cadeira, fumando um charuto e conversando, sim, simplesmente conversando com a galera; respondendo perguntas, comentando, contando histórias. Por incrível que pareça é exatamente uma coisa dessas que espero de um artista como Oswaldo, mas ver acontecer foi muito diferente. "Que horas são!? 15 pras 9!? Vamos esperar dar a hora [pra começar a tocar] pro pessoal não achar sacanagem.". E quando chegou a hora, ele simplesmente se levantou, pegou no violão e começou a desfilar as canções que ajudaram a moldar o que sou hoje. Cantei alto demais algumas vezes, gritei, sim, e daí, eu precisava fazer aquilo. Quando acabou eu queria conversar com ele, tenho tanta coisa pra falar pra uma pessoa assim que nem sei exatamente o que diria, mas, com a conversa, tudo fluiria, mas não tive essa chance, haviam pessoas demais querendo tocá-lo, coisificá-lo, transformá-lo num troféu numa foto, decidi esperar acalmar o furor, mas isso não aconteceu, e o pior, ele saiu depois com uma conhecida minha pra "curtir uma baladinha em Londrina". Me senti estranho com relação à isso por diversos motivos, muito estranho, senti inveja, descobri que "queria ele só pra mim", precisava daquilo. "eu sei como é... é pior quando é alguem que a gente conhece, não? pq ai vc ve que é alguem igual a ti, de carne e osso e "nada de especial" e fica se perguntando: pq nao eu??????? hahahahahahaahhahahaha" (Marcela). É bem isso. Passada essa sensação, voltando pra casa de uma amiga, "caiu" a ficha que eu tinha acabo de sair do show, que o show tinha acabado, que eu tinha acabado de realizar um "sonho". Um vazio misturado à uma satisfação. Vazio porque o show havia acabado, o momento esperado tinha chegado e já acabado. "É como o gozo vir depois do amor!" (Fado Doido). Ouvindo o CD do Oswaldo na casa dessa amiga e ouvindo as mesmas canções que tínhamos acabado de ouvir ao vivo a sensação de vazio aumentou. A satisfação crescia junto, pelo menos tínhamos ouvido ao vivo e aproveitado o quanto pudemos! Mas o que mais me marcou foi exatamente essa frase ali de cima e tudo que ela me fez pensar. Quando ele tinha vinte anos, ele já tinha vivido (ao menos tive essa impressão) uma vida, o suficiente pra uma vida, ao menos, e não em termos de experiências de vida, não, penso em arte quando digo isso. Ele já construía uma obra que viria a ser sólida, logo, ela já o era, consideremos, então. Ele já pensava a música como um caminho, o teatro, a poesia, a arte, enfim, como algo não só possível e provável, mas como o caminho de sua sobrevivência (e não digo apenas em termos financeiros). Isso me fez pensar em nós e nos nossos vinte anos. Ou, se preferirem, em mim e meus vinte anos. Tenho vinte anos e o que construí? Sei que não sou o primeiro a falar disso e já nasce daí uma pergunta: isso é um reflexo ou uma causa? Mas inevitávelmente tive essa sensação. Antes eu vivia numa cidade pequena, não tinha horizontes, ou os tinha, por isso hoje estou em Londrina, mas aqui me vejo preso de novo, não por falta de horizontes físicos, mas me descobri muito mais cidade pequena do que a própria cidade que (achava eu) "me aprisionava". Como pensar a arte, como pensar um horizonte para mim? Pensar um horizonte de arte para mim? É certo que hoje em dia "todos podem ser artistas" e o questionamento acerca de meu próprio valor é constante em mim, assim como o velho questionamento vanguardista de "o que é arte?" e espero que a resposta exista e, se não existir, que a arte por si só "selecione" o que é arte ou não; como dizia, posso sim ou não ser um artista, considerando que sim, tenho idéias, concordo, mas essas idéias tem morrido comigo e de que vale tê-las e não fazê-las vingar. De que vale ter vinte anos e uma cabeça cheia de coisas que só servem para mim. "Eu amava como amava um pescador que se encanta mais com a rede que com o mar" (Lua e Flor); "Você tem que olhar mais para o mar!", me disse uma vez um conhecido e eu, hoje, concordo Enquanto eu olhar pra rede, não poderei contemplar o mar, não poderei ver a cor da água, nem fazer parte desse mar. Pensar a arte aos vinte, aos trinta, construir aos vinte, construir aos trinta, mas construir de verdade. Minha mente agora está de novo dispersa, Tentei organizar da melhor maneira possível o que senti, mas, como alguns sabem, botar em palavras o que se sente nem sempre é tão fácil, ou possível. "Que minhas palavras não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos" (Metade). O show foi tudo que eu esperava e mais e isso me impressionou muito. Agora só falta o Belchior.
Escrito por Sandman às 00h14
[]
[envie esta mensagem]
|
|